A Vida de Virgílio:
Estima-se que a tradição biográfica de Virgílio venha de uma biografia perdida de autoria de Varius, editor de Virgílio, que foi incorporada na biografia feita por Suetônio e os comentários de Sérvio e Donato, os dois grandes comentadores da poesia de Virgílio. Embora os comentários sem dúvida registem muitas informações factuais sobre Virgílio, pode mostrar-se que algumas das suas evidências se baseiam em inferências feitas a partir de sua poesia e alegorização. Portanto, a tradição biográfica de Virgílio continua a ser problemática.
A tradição diz que Virgílio nasceu na vila de Andes (atual Virgilio), perto de Mântua, na Gália Cisalpina. Estudiosos sugerem descendência etrusca, úmbria ou até mesmo céltica, examinando os marcos linguísticos ou étnicos da região. A análise do seu nome deu origem a crenças de que ele descenderia dos primeiros colonizadores romanos. Especulações modernas, em última análise, não são apoiadas pela evidência narrativa nem dos seus próprios escritos nem dos seus biógrafos posteriores.
Macróbio diz que o pai de Virgílio era de origem humilde; no entanto, os estudiosos em geral acreditam que Virgílio era de uma família de latifundiários equestres que puderam oferecer-lhe uma educação. Frequentou escolas em Cremona, Mediolanum, Roma e Nápoles. Após um breve período de reflexão, o jovem Virgílio decide abandonar uma carreira em retórica e lei, e passar a dedicar os seus talentos à poesia.
As Obras:
Amigo de Horácio, como ele protegido por Mecenas, entrou em contato com o imperador pela primeira vez quando Augusto retornava de uma campanha vitoriosa contra Marco Antônio, ainda no porto de Brindes (Brindisi). Mecenas apresentou o jovem escritor com o intuito de fazê-lo instrumento de propaganda do imperador, de quem recebeu o incentivo para escrever a Eneida.
Admirador da cultura helênica, empreendeu uma viagem à Grécia, berço e viveiro da cultura, sonho que há muito acalentava: o destino concedeu-lhe a realização desse anseio, mas morreu no regresso, junto de Brindisi. O seu túmulo encontra-se em Nápoles.
A obra de Virgílio compreende, além de poemas menores, compostos na juventude, as Bucólicas ou Éclogas, em número de dez, em que reflete a influência do gênero pastoril criado por Teócrito.
As Geórgicas, dedicadas ao seu protetor Mecenas, constam de quatro livros, tratando da agricultura. Trata-se de uma obra de implicações políticas indiretas, embora bem definidas: ao fazer a apologia da vida do campo, o poeta serve o ideal político-social da dignificação da classe rural. Reflete a influência de Hesíodo e Lucrécio.
Literariamente, as Geórgicas são consideradas a sua obra mais perfeita. E finalmente, a Eneida, que o poeta considerou inacabada, a ponto de pedir, no leito de morte, que fosse queimada, constitui a epopeia nacional.
Esta refere-se à lenda do guerreiro Eneias, que, após a célebre guerra, teria fugido de Troia, saqueada e incendiada, e chegado à península Itálica, onde se tornou o antepassado do povo romano. Epopeia erudita, a Eneida tem como objetivo dar aos romanos uma ascendência não-grega, definindo a cultura latina como original e não tributária da cultura helênica.
O poema consta de doze livros e a sua construção serviu de modelo definitivo às grandes epopeias do renascimento, nomeadamente para Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, o que se percebe claramente comparando o primeiro verso das duas epopeias:
- Eneida: Arma uirumque cano... que significa: "As armas e o varão (herói) eu canto"; com
- Lusíadas: As armas e os barões assinalados..
Segundo os comentaristas, Virgílio recebeu sua primeira educação quando tinha cinco anos de idade, indo mais tarde para Cremona, Milão e finalmente Roma para estudar retórica, medicina, eastronomia, que ele logo abandonou pela filosofia. Da admiração por Virgílio referida pelos escritores neotéricos Gaio Asino Pólio e Élvio Cinna, tem-se inferido que ele foi durante algum tempo associado ao círculo neotérico de Catulo. Segundo a tradição, Virgílio preferia sexo com homens e especialmente amava dois jovens escravos, entretanto colegas de Virgílio consideravam-no extremamente tímido e reservado, de acordo com Sérvio, e ele foi apelidado de "Partênias" ou "donzela" por causa de seu distanciamento social. Virgílio parece ter tido pouca saúde em toda a sua vida e em algumas aspectos viveu como um inválido. Segundo o "Catalepton", enquanto que esteve na escola epicurista de Siro, o epicurista, em Nápoles, começou a escrever poesia. Um grupo de pequenas obras atribuídas ao jovem Virgílio pelos comentadores sobrevive coletados sob o título Appendix vergiliana, mas são largamente considerados espúrios pelos estudiosos. Um deles, o Catalepton, consiste em catorze poemas curtos, alguns dos quais podem ser de Virgílio, enquanto outro, um poema narrativo curto intitulado Culex ("O Mosquito"), foi atribuído a Virgílio já no século I da era cristã.
Diz a lenda que Virgílio, pouco antes de morrer, pediu aos amigos que queimassem o manuscrito do seu famoso poema, pois só assim acabaria os penosos onze anos de trabalho que lhe havia dedicado, na busca de uma perfeição inatingível.





